domingo de ramos

foi sincero o beijo de judas, isso ninguém tira da minha cabeça. bezerra da silva nos ensinou que há centenas de maneiras de se apontar alguém, um ó é aquele ali ó já resolvia o problema. jesus ter sido traído com um beijo é uma puta imagem, poeticamente, mas não convence, em termos de verossimilhança. dá pra sentir o cheiro de coisa escondida, de há-mais. desconfio que judas fosse um cara legal. o que atrapalha muito sua fama, penso, é esse sobrenome infeliz. iscariotes. eta nome feio! chamasse judas tadeu, como seu xará e colega, talvez a história tivesse sido menos cruel com sua figura. a melhor interpretação para o gesto fatal da suposta traição é a que aponta para o princípio da economia. coube a judas, muito a contragosto - isso consta na história oficial -, a tarefa de dedurar jesus a seus algozes. o filho do homem devia saber que a melhor maneira de potencializar sua mensagem era a martirização, donde seu bate-papo desesperado com deus na sesta da santa ceia (fidel castro continuou vivo, e o impacto de sua figura é mínimo, se comparado à do mártir che guevara). alguém teria que fazer o serviço sujo. jesus prenuncia/ confia essa missão ao iscariotes, que fica puto, mas aceita a missão e a má-fama dos trinta dinheiros. na hora agá, prevalece o princípio da economia: com um único gesto, o beijo, judas aponta jesus e diz a ele, de coração: "gosto de você pra caralho, bicho". até hoje ninguém entendeu a equação de judas, tão sofisticada por equilibrar no mesmo gesto duas ações aparentemente antagônicas. talvez resida aí antagonismo nenhum: o beijo de judas, meus amigos, foi coisa de entendidos, coisa deles, dos dois só. lavar a boca antes de falar de judas iscariotes.

3 comentários:

hudz disse...

domingo de ramos
passado no Piscinão

hudz disse...

foi a última tentação de cristo

Anônimo disse...

concordo.
fazer o mocinho é fácil, mas o vilão é foda. a parada é que sem vilões não há mocinhos, muito menos mártires. é a história do 0 e 1 de novo, sempre.
Deus (ou talvez Jesus mesmo)resolveu criar a peça - alguém tem que pegar o papel meu irmão.
As pessoas parecem não sacar que numa (e)(hi)stória, só interessam protagonista e antagonista. o resto é cenário.
Quem sabe o beijo foi a forma de se aproximar de Jesus e dizer: pronto cara, cumpri a primeira parte do climax da nossa missão; agora é com você. que Deus nos ajude a suportar.
Já Pedro foi só o cagão da parada, ele e os outros dez, mesmo sabendo da boca do próprio príncipe que o reino dos céus não é aqui, ficaram na moita. E ainda viraram santo.
Santo é uma merda mesmo - de que adianta a apologia à culpa infinita?
Culpa é para covardes.
Mas há os que assumem a responsabilidade de serem o que vieram para ser - esses são os corajosos.

Raulzito já tinha sacado isso né?